Já não sei o que pensar se todos os meus pensamentos são o fruto de imposições. Não entendo a contradição dos meus desejos, não vejo lugar habitável além das paredes do meu quarto. Não. Não. Não. A vida é uma negação.
Não estou preocupada em construir períodos e frases lógicas ou coerentes. Porque meus sentimentos jorram. E nesse jorro sai mágoa, sai angústia, sai decepção.
É como se eu não existisse. Como se eu fosse um misto de emoções que vagam pelo ar em busca de um porto seguro. E esse porto não existe.
Suicídio é uma tentativa de acabar com a dor, não com a vida. Mas não quero que a dor acabe. Eu a busco, pois a dor é a única prova de que ainda estou viva. Não sou um ser que vegeta. Não sou o alvo de olhares indiferentes. Eu sinto dor. Eu estou viva.
Sei que estou. O álcool penetra em minhas veias, fazendo com que elas latejem, pulsem. Meu corpo entra em transe. Cada centímetro do meu corpo dói. É o sinal, há vida nele.
Porém, esta não é a vida que quero.
Sou um paradoxo. Racional paradoxo. Por que não consigo controlar meu corpo? Por que o álcool o controla? Meu cerebelo deve me obedecer. Quero ficar equilibrada.
Há forças sobrenaturais que me puxam para o chão. Meus olhos se recusam a esquentar. Mas eles não são donos de si. O álcool é o senhor do domínio. Não há fuga. Como também não há fim.
Toda a minha vida eu esperei. Esperei o mar, o trem, a comida, a chuva…
Esperava meu pai voltar do mar para recolher os peixes;
Esperava anoitecer para armar as redes;
Esperava minha mãe para me levar para a escola;
Toda a minha vida eu esperei.
Se a música acabava, eu esperava a reprise para tentar decorar a letra;
Se a fogueira se apagava, eu esperava a última fagulha virar cinza para ir me deitar;
Se fazia sol por muitos dias, esperava a chuva;
Quando todos falavam, eu esperava o silêncio;
Durante a noite, eu esperava o sono.
Se o céu oferecia as estrelas, eu esperava o luar;
Eu sempre esperei. Era uma esperadora.
Esperava tudo. Só havia uma coisa que eu nunca tinha esperado. Algo que todos ansiavam, menos eu- que nunca esperei o amor.
Mas um dia ele veio. E veio do mar.
Quando esperava o sol se por, sentada na areia ainda quente, um barco divisou o horizonte.
Nascida e criada à beira da praia, eu conhecia todas as embarcações. Aquela não.
Esperei o barco se aproximar. E seu condutor ancorá-lo.
Ele desceu e parou ao meu lado.
Esperou minha voz assim como eu esperei a dele.
Ele também era um esperador.
Naquele dia, nada falamos. Nem nos próximos que se seguiram.
Aquele pescador misterioso ficou hospedado na cabana de um vizinho.
Um dia esperei que ele voltasse com seus peixes do mar para conversar e remir do silêncio que lhe deu as boas-vindas.
Conversamos muito. E nessas conversas descobri que ele era um pescador errante que vivia navegando e nunca tinha uma moradia onde ficasse por muito tempo.
A partir deste dia me apaixonei.
Vivia na certeza da sua partida e na esperança que sua ideologia mudasse.
E tudo quanto eu esperava era por ele, dele, para ele.
Esperava seu sorriso de bom-dia, sua volta do mar.
Esperava as noites em que conversávamos em volta de uma fogueira.
Esperava que o tempo estivesse bom toda vez que ele saía para a pesca.
Esperava que ele sentisse minha falta.
Minha vida continuou sendo a de uma esperadora.
Depois de dias sem obter uma boa pesca, ele resolveu sair para mais uma empreitada. O mar estava revolto. E eu desesperada.
Mas ele precisava partir. E assim o fez.
É inefável a angústia que senti naquele momento. Uma angústia que cala a voz, dói o peito e se perpetua….
Cada onda que arrebentava violentamente perto da praia era um presságio de que eu não o veria mais.
Nunca mais meu pescador voltou.
Não tenho certeza se ele está vivo.
A única coisa viva é a esperança de que um dia ele volte da mesma maneira que chegou: inesperadamente.
P.S.: A inspiração para esse conto veio da música Suíte dos Pescadores, de Dorival Caymmi, cantada por Nara Leão.
Existem pais que são presentes na vida dos filhos, que opinam, aconselham, puxam a orelha. Assim como existem pais que raramente vêem seus filhos ou que nem sabem que são pais. Sim, há pais de todo jeito.
E como em todo ano, os filhos procuram demonstrar seu amor e admiração no dia dos pais através de presentes, de almoços em restaurantes ou de qualquer coisa que saia da rotina diária. Essa é a forma que se difundiu para mostrar que os filhos gostam dos pais.
Tais atitudes seriam totalmente desnecessárias se durante todo o ano houvesse demonstração de carinho, respeito e admiração para os pais que merecem.
Eu nunca fui de presentear meu pai. Talvez seja porque quando morava com ele eu não tinha dinheiro para presenteá-lo. Todo o dinheiro da casa vinha dele, então se eu comprasse um presente pra ele, com o dinheiro dele, eu não o estaria presenteando. Mesmo hoje, que vivo há uns 550 quilômetros, trabalho e recebo por isso, eu não compro presentes pra ele em comemoração do dia dos pais.
Mas ligo pra dizer “Feliz dos Pais!”. Sempre disse isso no segundo domingo do mês de agosto. E, invariavelmente, meu pai sempre respondia: “Feliz dia dos filhos!” Ontem não foi diferente. Recebi uma felicitação por ser filha, mas recebi muito mais que isso. Recebi a confirmação que meu pai ainda é meu pai. Ele não mudou.
A tarefa de ser pai é muito difícil. Um pai sempre projeta a vida que ele quer que seu filho tenha. Talvez na profissão, no caráter, na vida sentimental… Mas isso é praticamente impossível uma vez que não dá pra decidir nada a respeito de ninguém. Cada um tem suas escolhas, sem contar nas escolhas que a vida nos impõe.
Eu mudei e estou em constante processo de mudança. E meu pai, mesmo não concordando com muitas dessas mudanças, continua sendo o mesmo. O mesmo pai que ouve, que balança a cabeça em sinal de reprovação, que parabeniza, que discute, que sorri, que sofre silenciosamente, que se orgulha dos filhos.
Meu pai tem muitas qualidades ruins, não posso negar. Mas isso jamais foi empecilho para que eu o admirasse e o amasse.
Ouvir “Feliz dia dos filhos!”, no dia dos pais, só me leva a dizer: Obrigada pai por se fazer presente em minha vida tão conturbada e obrigada Graham Bell por me proporcionar momentos em que a fala e o ato de ouvir me mostram que ainda tenho um pai.
Há algum tempo, minha irmã e eu estávamos olhando apartamentos para comprar. Essa é uma história bem longa que dará, no mínimo, uns 3 posts (Brincadeiraaaaa!), e que pretendo contá-la mais tarde. O importante é que compramos, enfim, o apartamento.
E naquela expectativa de como seria a nossa vida morando sozinhas, assumindo as responsabilidades financeiras, despesas com casa, comida, a organização da nossa residência e tudo o que essa vida de “independentes” implica, comecei a fantasiar nosso dia-a-dia. Imaginei como seria nosso deitar e levantar, nosso almoçar e jantar, nosso caminhar e correr.
Em meio a todas essas quimeras, percebi que nossa vida não seria do jeito que eu planejei. E achei ótimo isso. Porque uma vida regrada, seguindo padrões e normas, não é muito o que gosto. E também porque não dá pra planejar a vida de outra pessoa, que tem gostos, escolhas e oportunidades diferentes das que tenho. Planejar a minha vida já é difícil e nem sempre é a melhor coisa a se fazer.
Então percebi que o que eu mais queria (e o que mais ansiei durante os quatro anos que morei com meus tios) era uma vida simples, livre de cobranças, livre de correntes. Livre. Simplesmente isso. Nessa linha de raciocínio, uma música veio em minha mente. Permaneceu tocando durante muitos dias. Então decidi dedicá-la à minha irmã, minha companheira nessa vida de “gente grande”. Engraçado foi que quase tudo aconteceu ou está acontecendo como na letra dessa música. A diferença é que a cama chegou na segunda. Ah…. e como amo essa música, como admiro seu autor e como quero que a maninha goste dela também!
E a música é: O mundo anda tão complicado!
Do grande músico: Renato Russo!
E a letra é:
“Gosto de ver você dormir
Que nem criança com a boca aberta
O telefone chega sexta-feira
Aperto o passo por causa da garoa
Me empresta um par de meias
A gente chega na sessão das dez
Hoje eu acordo ao meio-dia
Amanhã é a sua vez
Vem cá, meu bem, que é bom lhe ver
O mundo anda tão complicado
Que hoje eu quero fazer tudo por você.
Temos que consertar o despertador
E separar todas as ferramentas
Que a mudança grande chegou
Com o fogão e a geladeira e a televisão
Não precisamos dormir no chão
Até que é bom, mas a cama chegou na terça
E na quinta chegou o som
Sempre faço mil coisas ao mesmo tempo
E até que é fácil acostumar-se com meu jeito
Agora que temos nossa casa é a chave que sempre esqueço
Vamos chamar nossos amigos
A gente faz uma feijoada
Esquece um pouco do trabalho
E fica de bate-papo
Temos a semana inteira pela frente
Você me conta como foi seu dia
E a gente diz um pro outro:
- Estou com sono, vamos dormir!
Vem cá, meu bem, que é bom lhe ver
O mundo anda tão complicado
Que hoje eu quero fazer tudo por você
Quero ouvir uma canção de amor
Que fale da minha situação
De quem deixou a segurança de seu mundo
Por amor”
Aqui está um vídeo:
Quero isso mesmo. Quero pessoas que enxerguem a beleza em coisas simples, que observem as pessoas com quem convivem, que deixem de lado, o pandemônio de trabalho, estudo, obrigações, afazeres e, simplesmente, vivam.
Eu creio que é possível fazer tudo o que gostamos e o que não gostamos sem ficarmos estressados. Só temos uma vida. Se não a vivermos de forma plena, não teremos outra oportunidade para isso. Tenho certeza.
Um grande abraço de quem está extremamente feliz e de casa nova,
Quando fui criar as categorias para organizar os posts, a primeira que criei foi música. E é fácil entender o porquê. Tenho facilidade para conversar com qualquer pessoa e, geralmente, sobre qualquer assunto. Porém, invariavelmente, eu acabo falando de música.
Música é um pedaço de mim, faz parte da minha constituição celular (=P)e não consigo passar um dia sequer sem presentear meus ouvidos.
Esta ligação tão forte teve início em meados de 2005 quando me apaixonei por uma pessoa que gostava muito de música e, principalmente, de Rock. E eu me apaixonei muito por ela. Ela, pessoa e ela, música. Daí comecei a ouvir Mania FM, a rádio de pop/rock que conseguia sintonizar lá numa fazenda recôndita de Minas Gerais. Conheci Blink 182, CPM 22, Detonautas, Green Day, Led Zeppelin, Guns, Gabriel Pensador, Los Hermanos, Raimundos, Paralamas, Titãs e toda a trupe que fazia sucesso naquela época (e muitos continuam fazendo).
Eu já gostava de Legião Urbana, que minha amiga-irmã Crislane tinha me apresentado através de uma fita K7. Lembro-me perfeitamente das tardes que passava ouvindo e pausando mil vezes a fita para conseguir escrever a letra em um caderno. Só recapitulando eu morava na roça e nem tinha Internet na cidade (pelo menos, não que eu saiba), OK?
Ficávamos o dia todo com o rádio ligado, para delírio de minha mãe, gravando as músicas que passavam. Essa arte aprendi com minha irmã. Ela teve a ideia de sobrepor as músicas que passavam no rádio nas fitas de Geraldinho, Ryan e outros cantores evangélicos- sertanejos que minha mãe tanto gostava. Até hoje Mamis não nos perdoa por isso. Eu ficava depois repassando as fitas e tentando decorar a letra para cantar com a “galera” ou no chuveiro.
Bons tempos…. entendia quase nada de Faroeste Caboclo e mesmo assim enrolava a língua e ai daquele que pedisse pra eu repetir o que tinha cantado. E sempre tem uma música para o momento que você está vivendo. Quando tive de vir para Brasília e terminar meu namoro, chorava copiosamente com Vento no Litoral. E quem nunca chorou com dor de cotovelo ao ouvir essa música? Quando estava disposta ouvia “Passe em casa”, com os Tribalistas. Quando estava deprê, Andrea Doria; quando queria estudar ou dormir, Anjo da Guarda- Marisa Monte ou Flora- Chico Buarque; Aliás, essas ainda são minhas músicas de ninar.
No início de 2006 me mudei para Brasília para iniciar e terminar o Ensino Médio. Quando morava com meus pais raramente saía de casa. Uma vez ou outra dormia na casa de uma amiga ou na casa da Vozinha. O choque foi imenso. Sair de casa com 14 anos, cheia de planos, uma verdadeira visionária, para morar com tios e ver os pais 2, 3 vezes por ano foi a escolha que mudou completamente o rumo de minha vida. Nesse cenário, conheci a Música Popular Brasileira.
Foi amor à primeira vista. Enviesei pelo Jazz, pelo Blues, pela Bossa Nova.
Conheci Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Nara Leão, João Gilberto, Elis Regina, MPB4, Roupa Nova, Quarteto em Cy, Gonzaguinha, Joana, Zé Keti, Ivan Lins, Leila Pinheiro, Chico Buarque, Tom Jobim, Maysa, Erasmo Carlos, Johnny Alf, Carlos Lyra, Roberto Menescal, Vinicius de Moraes, Fernanda Takai (sucesso no Pato Fu e em carreira solo) e tantos outros.
Não sei o que me atraiu mais: o ritmo suave, a música bem trabalhada e, ao mesmo tempo, simples, a forma intimista de protestar, um sambinha delicado… Sei que a junção de todas essas características despertou uma paixão avassaladora e permanente.
Como eu havia dito, cada momento da vida é marcado ou nos remete a uma música. Desde que estou na capital do Brasil a trilha sonora é Bossa Nova.
Agora, mais do que eu disse ou do que possam dizer, tem uma canção do Chico Buarque que define muito bem a capacidade da música de transformar, de alegrar; e como sua ausência entristece, desmotiva e, diria até, causa um conformismo. Chama-se A Banda.
Nesse vídeo “A Banda” é interpretada por Nara Leão em um Festival em 1966.
Posso dizer que meu gosto musical é muito variado. Mas minhas preferências são Rock e Bossa Nova. Preferências contraditórias, eu sei. Como eu.
Tenho a impressão que foi só eu dedicar uma atenção especial à morte que ela resolveu se manifestar.
Cheguei ontem de Minas. Tinha ido pra lá passar a semana do Natal. Meu cunhado (Natan) queria conhecer meus pais e me convidou para passar o fim de semana lá. Foi a primeira vez, desde que estou aqui, que vejo meus pais em menos de um mês. Viajamos na sexta-feira (08/01/2010) de manhã e chegamos ontem às 22h50min.
Na viagem de ida contei 5 cachorros, 1 tatu, 1 homem, 1 gato e 3 pássaros mortos. Ah… e mais o mico que o Natan atropelou. Na volta foi um pássaro que estatelou no para-brisas do carro.
Nós chegamos bem na casa da minha mãe. À noite, ligaram pra meu pai comunicando que minha avó tinha falecido. Choque! Não a mãe do meu pai nem da minha mãe. Mas era a avó mais presente que eu tive. Seu nome era Sílvia Bernardes Pereira. Em 1994 nos mudamos para a fazenda que pertencia a ela e a seu marido (Vô Totõe). Eu tinha 3 anos e eles pediram para que nós os chamássemos de avós. Aprendi muitas coisas com eles. Meu avô me ensinou a contar e a ler as horas no relógio de bolso que ele sempre carregava. Ensinou-me a importância da caminhada e do cuidado com a saúde. Ensinou-me que as vezes tomamos decisões que alterarão para sempre nossa vida e nem sempre essas decisões podem ser revertidas. Ele faleceu em 1999, com 89 anos de idade. Lembro-me de cada detalhe do seu velório. De cada sentimento que me invadiu.
Sua esposa, vó Silvia, estava então com 74 anos de idade. E ela parou ai. Foi detectado que ela tinha Mal de Alzheimer. Ela começou esquecendo pequenas coisas, repetindo a mesma pergunta em intervalos cada vez menores. Havia uma “mancha ” em seu cérebro que crescia e crescia…
Havia situações que eram muito engraçadas. Desde 1999 até 2010 ela sempre dizia que tinha 14 anos que ela não sentia cheiros. Mas, às vezes, ela esquecia disso e soltava frases como “Que sabonete cheiroso esse!”. E ela nunca sabia em que ano estava… então se dissesse que era 1998, 2005, 2050 ela sempre acreditava.
Porém, quem tem ou teve alguém na família com Alzheimer sabe como é estressante cuidar de uma pessoa assim. Tem de ter uma paciência 15 mil vezes maior que a de Jó e uma compreensão extrema. Se lida com uma doença e não com um querer.
Confesso que minha avó não era a melhor das pessoas. Tinha atitudes, mesmo quando estava sã, que irritavam. Dizia certas coisas para o meu avô que o magoavam profundamente. Tenho umas lembranças que, hoje, me fazem rir. Como quando ela me bateu com a tábua do balanço, quando tentou cortar meu pescoço e meu braço com uma faca (que não estava afiada, aleluia!), quando me pediu para dormir com ela porque estava com medo… Lembro-me que ela se esquecia de tomar banho e era um sacrifício convencê-la a entrar no banheiro. Lembro-me de lavar seus cabelos e pintar suas unhas (que eram, e continuam sendo, as unhas mais lindas que já vi), de ela me ensinar a bordar os pontos Rococó, Caseado, Caseado Cheio, Ponto Liso, Ponto Atrás, Ponto X… e de que sempre quando começava o Jornal Nacional ela dizia que era parente da Fátima, por causa do sobrenome.Lembro-me de suas ameaças de suicídios nunca concretizadas, de segui-la pelas estradas quando ela dizia que ia embora.
O interessante é que ela não se lembrava de fatos recentes, mas recordava detalhes da época em que nasceu, os costumes, vestes e dogmas da sociedade das décadas de 20 e 30. Relembrava que tinha sido internada em um manicômio e tinha sido necessário amarrá-la com cordas. Recordava o nome de parentes que há muito não via e manifestava o desejo de reencontrá-los.
Contava como foi ter 10 filhos, como era ser mulher, auxiliadora e mãe ao mesmo tempo.
Mas cuidar dela era tarefa difícil e cansativa. E ela corria perigos morando na cidade (Abadia dos Dourados) porque não olhava para os lados quando ia atravessar a rua e sempre chegava noticias de que ela quase havia sido atropelada. Sem contar nas vezes que andava longas distâncias sem rumo.
Não sei se foi em 2008 ou 2009 que ela foi para o Abrigo Nossa Senhora de Aparecida, em Luz- sua cidade natal-, um lugar bem equipado e seguro. Todas as vezes que eu ia para Minas dizia que queria vê-la ainda com vida; queria saber se ela se lembraria de mim. Planejei ir vê-la em Julho. Meu pai iria essa semana visitá-la com seu filho. As notícias que chegavam eram muito contraditórias. Uns diziam que ela estava com câncer de pele; outros que ela estava perfeitamente saudável; chegavam noticias de que ela estava muito magra e precisava ser amarrada para dormir (novamente). Só em uma coisa todos concordavam: ela não queria ficar lá. Queria voltar para sua casa e dizia que meus pais iriam buscá-la.
Mas isso não aconteceu. Ela teve um infarto antes. Descansou e proporcionou descanso a quem cuidava dela.
E isso me fez pensar mais sobre a morte. E me lembrei que a morte também alivia. A Bíblia diz que depois dos 70 anos o que vem é cansaço e fadiga (Salmo 90:10) e também diz que devemos aproveitar a nossa juventude. Isso é fato. Também percebi que a morte é mais compreendida que a vida. Se alguém de sua família morrer, seu chefe certamente irá liberá-lo, tudo poderá esperar. Mas você nunca será liberado pra um aniversário, uma festa, uma confraternização.
Também pensei mais sobre a vida, esse vapor que breve se dissipa. Olhando para o corpo de minha avó, pensei : “O que é a vida? O que é esse fôlego que faz os órgãos funcionarem?” Porque o corpo estava ali, mas a vida não.
Olhei para suas unhas. Estavam do mesmo jeito que lembrava. E ela estava muito magra sim: 38 Kg! De repente, um de seus filhos me abraçou e disse: “Ela gostava muito de você”. Pensei: “E eu gostava muito dela.”
Por que é tão difícil dizer a alguém que a ama? Por que sempre a família se reúne em torno da morte e nunca em ocasiões onde a vida é celebrada? Por que só valorizamos as pessoas quando ela está em um caixão? Por quê? Por quê?
Vó Silvia partiu aos 84 anos e foi enterrada junto com seu marido. Quando a sepultura foi aberta, para espanto de todos, era como se depois de 11 anos meu avô estivesse ali: seus ossos perfeitamente intactos, seus cabelos brancos, suas vestes…
É o ciclo natural das coisas, eu sei. Mas não compreendo.
Haja o que houver, uma certeza eu tenho : nunca compreenderei a morte!
Hoje queria que minha avó, onde quer que ela se encontrar, soubesse que ela fez parte da minha vida e, principalmente, que eu a amava.
Democrática. É assim que a Morte é. Não opta por classe social, idade ou quaisquer outros parâmetros de separatismo que nós, humanos, usamos.
Quando se ganha a Morte, se perde. Ganhar a Morte implica perder a vida. Perder chances, sonhos, pessoas…
As vezes a Morte é incompreendida; outras é ovacionada. Quando ela encontra um assassino, um meliante, um corrupto, é considerada bem-vinda. Porém, quando seu encontro se dá com um idealista, uma criança, um Che, todos se revoltam, se emocionam, ficam indignados.
A Morte é fria. Porque sabe que é a única certeza de todos os seres. Ela estava presente na fundação do mundo, conheceu os heróis, os judeus e também os nazistas, os ídolos juvenis…
A Morte é cosmopolita. Conhece todos os continentes, países e pessoas. A Morte não discrimina, não tem preconceitos. Mas é sádica. Há casos em que ela castiga, retardando sua chegada. Ela sente prazer em deixar que o sofrimento acompanhe 10, 15 anos uma pessoa em coma. Mas a Morte não se contenta com isso. Ela convida sua parceira Angústia para acompanhar os familiares. A Morte gosta disso. Pois é a única maneira em que sua chegada é desejada.
Aliás, a Morte tem depressão. Sempre caminha sozinha. Não tem amigos, não fala. Ela já tentou iniciar uma conversa, mas foi frustrante: a pessoa perdeu a fala, perdeu a alma.
A Morte anda cansada. E os humanos a sobrecarregam. Com as guerras, as bombas, os desastres, a Morte tem muito trabalho. São muitas almas para levar. Mas já se acostumou.
No começo ela tinha coração. Se compadecia dos famintos, das crianças. Agora não. Já se tornou indiferente.
A Morte não gosta dos suicidas. Eles adiantam seu trabalho e ela já tem muito. Por isso, uma das poucas coisas de que a Morte acha graça é quando um aspirante a suicida não a encontra. A Morte abomina os suicidas.
Contudo, o que mais aborrece a Morte é a capacidade dos humanos de se desfazerem da vida. Eles podem parar de viver quando quiserem. A Morte não. A Morte nunca deixará de existir. Ela retira a vida de todos, mas é incapaz de retirar a sua própria. A Morte odeia os suicidas. Odeia os humanos.
Hoje quero falar sobre um assunto que vem me intrigando há um tempinho. Em meu Ensino Médio tive um professor muito bom, acredito até que o melhor professor que já tive. Falo mais dele depois. Ele dizia que o mal do século é a indiferença. Na época não concordava tanto. Hoje levanto essa bandeira com toda convicção. Na semana passada, um senhor, provavelmente um andarilho, visto que suas calças estavam com marcas de urina e suas roupas estavam sujas, aparentando ter uns 60 anos, estava caído em frente ao edifício onde trabalho. Algumas pessoas estavam ao seu lado e verificaram que ele estava desmaiado. Quando me aproximei, vi uma cena que não quer sair da minha cabeça: formigas e moscas entravam e saíam de sua boca. Juro que eu achei que ele estava morto. Mas, como uma colega bem observou, ele estava “respirando fraquinho”. Ao seu lado havia uma sacola com, provavelmente, todos os seus pertences e uma caneca de vidro. A ambulância já havia sido chamada e, cada vez mais, as pessoas paravam para observar e tentar prestar algum auxílio. Admiro essa solidariedade. O que me deixou indignada foi a falta de escrúpulos de alguns motoristas que colocavam a cabeça pra fora e gritavam “É muita cachaça mesmo!” “É só um pouco de álcool no sangue!” “Vão parar pra ver todo bêbado que cair?”. Sinceramente, não sei o que se passa na massa cinzenta de uma pessoa dessas. Como o Lubbass disse, poderia ser o seu pai, o meu pai…Caramba! Mesmo que estivesse bêbado, mesmo que fosse um alcoólatra, por acaso deixou de ser gente? E bêbados deixaram de ser objeto de compadecimento? Não prestamos ajuda a quem não precisa, certo? Por que cargas d’água há preconceito e separatismo até mesmo na hora de ajudar? Sério, isso não entra na minha cabeça. Outro dia, na fila do ônibus (deu pra perceber que sou pobre né? Rodoviária, ônibus…) ouvi uma mulher conversando com a outra sobre um garoto que tinha sido assassinado na Esplanada. Reproduzo abaixo a conversa de alto nível delas:
-Você ficou sabendo do menino que foi esfaqueado na Esplanada?
-Não, me conta… o que aconteceu?
-Ah…não sei direito. Mas era um menino de rua.
-Ah! Era de rua?! Menos mal então, né?
Como assim? Menos mal??? Onde está o amor ao próximo, a caridade (que é o amor em ação), o R-E-S-P-E-I-T-O? Então a lógica é : se for de rua, mata tudo (por favor, leiam com a entonação do Isaac, de Hermanoteu)! Procurei sobre esse caso, porém não encontrei nada a respeito. Com certeza aquelas mulheres são leitoras assíduas do “Na polícia e nas ruas”.
Contudo, quero deixar bem claro que não fatos assim que me deixam boquiaberta. Simples atos, como não dar bom dia pro cobrador do ônibus, boa noite pro porteiro do prédio, ceder o assento no metrô para idosos e afins, ouvir antes de replicar, já me mostram que o mundo está caminhando para o abismo. E, por falar em atos simples, fiquei chocada com uma cena que vi na minha querida, amada, idolatrada, salve-salve cidade de Águas Claras. Estava chovendo horrores e, quem mora lá sabe, uma lama daquelas escorria pelas ruas e calçadas. Um casal de velhinhos vinha andando na chuva. Ou melhor, a velhinha estava andando na chuva porque o velhinho monopolizou o guarda-chuvas e saiu andando às pressas deixando a pobre senhora, encharcada, tremendo de frio, para trás. Se esse mal do século já atingiu até os velhinhos que, teoricamente, deveriam ser mais compadecidos graças às suas “experiências”, o que será de nós, jovens que caminhamos em meio a um bombardeio de maus costumes e hábitos?
Diante de tudo isso, posso afirmar com propriedade que o mal do século é, sim, a indiferença. E acredito que uma das piores coisas que podem ocorrer a uma pessoa é ela se tornar indiferente às barbáries que ocorrem constantemente, como se vivesse em uma bolha, alheia a tudo que ocorre em sua volta.
Estejamos de olhos e corações abertos, pois existem pessoas que precisam de nós. E outras tantas que não precisam da nossa indiferença para piorarem suas vidas.
Sempre que o ano está acabando costumamos refletir sobre o que fizemos, o que deixamos de fazer e, talvez o que mais pensamos, o que faremos no ano que se aproxima. Eu não sou uma exceção. Nesses últimos dias de 2009 pensei mais que o de costume, (você deve estar se perguntando se é possível medir a quantidade de pensamentos. Sim, é possível. Pelo menos pra mim.), e cheguei a algumas tristes conclusões. Mesmo eu planejando tudo, pensando em cada detalhe, sonhando acima do normal, admito que não consigo controlar tudo na minha vida. E creio eu que ninguém consegue, pois somos seres inter-relacionais (com hífen ou sem hífen? Ah, dane-se!), seja com as pessoas, seja com o ambiente. E isso influencia e modifica nossas caminhos, nossos rumos. Vários projetos que eu tinha feito para esse ano não se concretizaram e sei que grande parte foi por minha culpa. Tá. Se os projetos eram meus como eu sou culpada por eles não acontecerem? Explico: eu poderia ter dado muito mais de mim, poderia ter ousado mais, corrido mais e, ao mesmo tempo, ter ficado mais quieta. É óbvio que nada, prestem atenção: NADA, chega de graça nas nossas mãos (mas em nossas meias sim. Prudente que o diga.). Sempre ouvi minha avó dizendo que não adianta fazer simpatia pra Santo Antônio se você não sair procurando um namorado. Isso é fato. E é aplicável para todas as áreas da vida.
Bem, em 2009 consegui algumas coisas bem legais: passei pra uma universidade pública (não pra o curso que eu quero, todavia, por enquanto tá valendo), fui contratada no MDS, fiz amizades inefáveis, amadureci bastante (nem tanto intelectualmente. Nesse ponto acho até que regredi. Mas amadureci em minhas opiniões e crenças.), no geral, consegui manter uma relação estável com meus tios (mesmo tendo a pior briga dentre esses 4 anos -pelo menos pra mim), me dediquei mais à leitura e defini meus gostos musicais, gastronômicos, religiosos (nem tanto, eu sei. Fica pro ano que vem.). E, sério, se numa escala de 0 a 100 os meus sonhos estavam em 80, agora estão em 110. Na escala de dificuldade para alcançá-los também.
Não posso dizer que me arrependi do que fiz. Poderia ter feito diferente, mas não me arrependo de nada.Fiz muita (leia-se “muitíssima mesmo”) besteira. Ah como fiz. Um dia, lá na frente, lembrarei de tudo com saudade e saberei, enfim, que tudo aconteceu na hora certa e no lugar certo. Mesmo com tantas coisas boas, posso dizer que 2009 foi o 3º pior ano de minha vida. O 1º foi 2005, quando minha irmã veio morar aqui em Brasília e eu fiquei lá na roça; o 2º foi 2007, meu segundo ano na capital do Brasil e ano em que entrei numa fossa daquelas; e 2009 porque vacilei pra caramba.
Passando ontem, na linda Rodoviária de Brasília, ouvi o locutor da Rádio dizendo que pra conseguir algo, a gente precisa definir o que é esse algo (Rodoviária também é filosofia =P). O que eu quero? Quero muito. E isso é mau. Há os limites físicos, psicológicos, culturais, financeiros e outros tantos…. Mas decidi que vou organizar melhor o meu tempo e que em 2010 começarei a investir mais nos meus alvos. Acredito que dê, sim, pra eu incluir na minha rotina aulas de violão, flauta, canto popular, canto coral, teatro, curso de fotografia… (OK. Eu não acredito em tudo isso. Mas em 80% disso. =P). Meus planos pra 2010 vão desde coisas toscas até coisas grandes.
Toscas:
Parar de roer unhas;
Ir mais ao salão de beleza; (Eu escrevi isso? Ai, escrevi.);
Fazer uma reeducação alimentar;
Cuidar mais da minha saúde que anda cada vez pior. (Isso não é tosco, mas pra mim não está na faixa dos mais importantes);
Dormir mais;
Parar de me drogar durante o dia com remédios para ficar acordada e à noite com calmantes para dormir;
Etc e tal…
Coisas grandes:
Ah… são tão grandes que não cabem aqui… Mas, sucintamente, seria investir ”pesado” nos meus sonhos.
Que 2010 chegue então trazendo alegrias e renovação de esperanças.
Fiquei uma semana longe de Brasília. Fui para a casa dos meus pais em Minas. Voltei com tantas expectativas, tantas esperanças… Posso dizer que essa foi uma das melhores, senão a melhor, viagem que fiz.
O abraço apertado do meu pai, o chamego do meu irmão, o sorriso da minha mãe me fazem muita falta.
Essa viagem também me trouxe motivos para refletir. Acredito que espanto não define a minha reação quando vi meninas que estudaram comigo, meninas mais novas que eu, casadas, casando-se, com filhos, cuidando de uma casa e do marido. OK. Não vamos discutir minha posição diante de casamentos. Mas fiquei chocada com essa realidade. Fiquei me perguntando se eu estaria casada se continuasse morando lá. Tudo bem as pessoas se casarem e tudo isso. Porém o que me deixa esbabacada é ver pessoas que abrem mão dos seus sonhos, dos estudos, dos planos e projetos e vão viver uma vida de labor numa fazenda qualquer. Ou talvez nunca sonharam. Ou eu sonho demais.
Também percebi, e até disse para minha mãe, que eu não nasci para aquela realidade.
Agora… achei incrível como pude fazer tantas coisas legais em apenas uma semana. Via TV até tarde, dormia até quando tinha sono, acordava sem despertador, não era controlada pelo tempo e minhas olheiras até clarearam! \°/
Vi o VMB!!! Se eu estivesse aqui, certamente, não teria visto! Como disse no twitter, estava indecisa entre o Mion e o Gentili. Votei bastante no Danilo, mas confesso que gostei muito do fato de o Mion ter ganhado. Emocionei-me com seu “pequeno” discurso, ri da reação do Gentili e da cara do Mano diante da bunda do Mionzinho, e fiquei triste que o Mion vai pra Record. Fala sério! MTV tem a cara do Mion! Como vai ficar Descarga, Quinta categoria…????
O VMB também reforçou a minha admiração pelo Adnet. É muito talento pra uma pessoa só! Pra mim, ele foi a melhor escolha para a apresentação desse evento tão importante para a música! E o Mário parecia o Kiabbo! Será que era ele?
Erasmo cantou lindamente e pulei quando Fernanda Takai ganhou na categoria MPB. Ela merece!
Fiquei triste também quando minha mãe envenenou nosso cachorrinho. Ta certo que não foi de propósito, mas lamentei muito a partida do Repe. Meu irmão fez um túmulo para ele e eu escrevi na lápide: “Repe, um cão fiel! 29/09/09” Que o céu dos cachorros te receba com festa.
Tive a oportunidade de ler muito e escutar muita música! Conversei bastante com meus pais e liberei muita coisa que eu estava segurando há tempos. Voltei com a alma mais leve. E o melhor de tudo é que eles me compreenderam e resolveram agir em meu favor. Não posso dizer especificamente o que é, mas quando se concretizar eu vou fazer tanta festa que todos saberão! Minha mãe brigou comigo por eu nunca ter falado nada. Linda Mamis! Fiquei de cara quando disse que não tava gostando muito do meu curso e minha mãe respondeu na hora: “O que você ta fazendo então??? Sai desse curso e vai fazer Jornalismo!!!” Não to acreditando até agora que ela me apoiou! Não que ela não me apóie, não é isso. Mas é que todo mundo tem uma reação diferente e eu também esperava isso dela. Falei dos meus planos para daqui uns 10 anos e minha mãe disse que se eu me esforçar, com certeza, eu conseguirei alcançá-los! Disse-me também que não dá pra eu namorar se quiser realmente realizar esses projetos. (Ela me entendeu de novo?!!?! Não acredito!)
Enfim… a viagem foi renovadora!
A parte ruim foi a volta. Chorei muito. Não queria voltar. Queria ficar lá mais e mais…. E no ônibus foi horrível. Uma mulher sentou-se no meu lugar, roubou o encosto de braço e ficou gemendo a viagem toda. Como ela tava com uma aparência doentia, não reclamei meu lugar. Como me arrependo disso! Toda hora ela pedia pra eu dar licença pra ela ir ao banheiro. Não dormi nada. Tava chovendo bastante e quando o motorista acelerava alcançava 30km/h. Fui dormir depois de umas 4 horas de viagem e adivinhem o que aconteceu? A mulher do meu lado me acordou e disse: “Moça, estamos chegando!” Ela só esqueceu de dizer que estávamos chegando em Luziânia. Aff…. Isso sem contar nas pessoas mal-educadas que vieram conversando o tempo todo e xingando o motorista. E sem falar também no campeonato de músicas que rolou no ônibus. Cada um se achou no direito de ligar o celular e botar a música no volume mais alto. HELLO! Já inventaram fone de ouvido!
Aqui estou afinal… trabalhando, estudando, cursando inglês, agüentando coisas na cabeça… Mas estou feliz! Ano que vem muita coisa mudará! Amém!