Tenho a impressão que foi só eu dedicar uma atenção especial à morte que ela resolveu se manifestar.
Cheguei ontem de Minas. Tinha ido pra lá passar a semana do Natal. Meu cunhado (Natan) queria conhecer meus pais e me convidou para passar o fim de semana lá. Foi a primeira vez, desde que estou aqui, que vejo meus pais em menos de um mês. Viajamos na sexta-feira (08/01/2010) de manhã e chegamos ontem às 22h50min.
Na viagem de ida contei 5 cachorros, 1 tatu, 1 homem, 1 gato e 3 pássaros mortos. Ah… e mais o mico que o Natan atropelou. Na volta foi um pássaro que estatelou no para-brisas do carro.
Nós chegamos bem na casa da minha mãe. À noite, ligaram pra meu pai comunicando que minha avó tinha falecido. Choque! Não a mãe do meu pai nem da minha mãe. Mas era a avó mais presente que eu tive. Seu nome era Sílvia Bernardes Pereira. Em 1994 nos mudamos para a fazenda que pertencia a ela e a seu marido (Vô Totõe). Eu tinha 3 anos e eles pediram para que nós os chamássemos de avós. Aprendi muitas coisas com eles. Meu avô me ensinou a contar e a ler as horas no relógio de bolso que ele sempre carregava. Ensinou-me a importância da caminhada e do cuidado com a saúde. Ensinou-me que as vezes tomamos decisões que alterarão para sempre nossa vida e nem sempre essas decisões podem ser revertidas. Ele faleceu em 1999, com 89 anos de idade. Lembro-me de cada detalhe do seu velório. De cada sentimento que me invadiu.
Sua esposa, vó Silvia, estava então com 74 anos de idade. E ela parou ai. Foi detectado que ela tinha Mal de Alzheimer. Ela começou esquecendo pequenas coisas, repetindo a mesma pergunta em intervalos cada vez menores. Havia uma “mancha ” em seu cérebro que crescia e crescia…
Havia situações que eram muito engraçadas. Desde 1999 até 2010 ela sempre dizia que tinha 14 anos que ela não sentia cheiros. Mas, às vezes, ela esquecia disso e soltava frases como “Que sabonete cheiroso esse!”. E ela nunca sabia em que ano estava… então se dissesse que era 1998, 2005, 2050 ela sempre acreditava.
Porém, quem tem ou teve alguém na família com Alzheimer sabe como é estressante cuidar de uma pessoa assim. Tem de ter uma paciência 15 mil vezes maior que a de Jó e uma compreensão extrema. Se lida com uma doença e não com um querer.
Confesso que minha avó não era a melhor das pessoas. Tinha atitudes, mesmo quando estava sã, que irritavam. Dizia certas coisas para o meu avô que o magoavam profundamente. Tenho umas lembranças que, hoje, me fazem rir. Como quando ela me bateu com a tábua do balanço, quando tentou cortar meu pescoço e meu braço com uma faca (que não estava afiada, aleluia!), quando me pediu para dormir com ela porque estava com medo… Lembro-me que ela se esquecia de tomar banho e era um sacrifício convencê-la a entrar no banheiro. Lembro-me de lavar seus cabelos e pintar suas unhas (que eram, e continuam sendo, as unhas mais lindas que já vi), de ela me ensinar a bordar os pontos Rococó, Caseado, Caseado Cheio, Ponto Liso, Ponto Atrás, Ponto X… e de que sempre quando começava o Jornal Nacional ela dizia que era parente da Fátima, por causa do sobrenome.Lembro-me de suas ameaças de suicídios nunca concretizadas, de segui-la pelas estradas quando ela dizia que ia embora.
O interessante é que ela não se lembrava de fatos recentes, mas recordava detalhes da época em que nasceu, os costumes, vestes e dogmas da sociedade das décadas de 20 e 30. Relembrava que tinha sido internada em um manicômio e tinha sido necessário amarrá-la com cordas. Recordava o nome de parentes que há muito não via e manifestava o desejo de reencontrá-los.
Contava como foi ter 10 filhos, como era ser mulher, auxiliadora e mãe ao mesmo tempo.
Mas cuidar dela era tarefa difícil e cansativa. E ela corria perigos morando na cidade (Abadia dos Dourados) porque não olhava para os lados quando ia atravessar a rua e sempre chegava noticias de que ela quase havia sido atropelada. Sem contar nas vezes que andava longas distâncias sem rumo.
Não sei se foi em 2008 ou 2009 que ela foi para o Abrigo Nossa Senhora de Aparecida, em Luz- sua cidade natal-, um lugar bem equipado e seguro. Todas as vezes que eu ia para Minas dizia que queria vê-la ainda com vida; queria saber se ela se lembraria de mim. Planejei ir vê-la em Julho. Meu pai iria essa semana visitá-la com seu filho. As notícias que chegavam eram muito contraditórias. Uns diziam que ela estava com câncer de pele; outros que ela estava perfeitamente saudável; chegavam noticias de que ela estava muito magra e precisava ser amarrada para dormir (novamente). Só em uma coisa todos concordavam: ela não queria ficar lá. Queria voltar para sua casa e dizia que meus pais iriam buscá-la.
Mas isso não aconteceu. Ela teve um infarto antes. Descansou e proporcionou descanso a quem cuidava dela.
E isso me fez pensar mais sobre a morte. E me lembrei que a morte também alivia. A Bíblia diz que depois dos 70 anos o que vem é cansaço e fadiga (Salmo 90:10) e também diz que devemos aproveitar a nossa juventude. Isso é fato. Também percebi que a morte é mais compreendida que a vida. Se alguém de sua família morrer, seu chefe certamente irá liberá-lo, tudo poderá esperar. Mas você nunca será liberado pra um aniversário, uma festa, uma confraternização.
Também pensei mais sobre a vida, esse vapor que breve se dissipa. Olhando para o corpo de minha avó, pensei : “O que é a vida? O que é esse fôlego que faz os órgãos funcionarem?” Porque o corpo estava ali, mas a vida não.
Olhei para suas unhas. Estavam do mesmo jeito que lembrava. E ela estava muito magra sim: 38 Kg! De repente, um de seus filhos me abraçou e disse: “Ela gostava muito de você”. Pensei: “E eu gostava muito dela.”
Por que é tão difícil dizer a alguém que a ama? Por que sempre a família se reúne em torno da morte e nunca em ocasiões onde a vida é celebrada? Por que só valorizamos as pessoas quando ela está em um caixão? Por quê? Por quê?
Vó Silvia partiu aos 84 anos e foi enterrada junto com seu marido. Quando a sepultura foi aberta, para espanto de todos, era como se depois de 11 anos meu avô estivesse ali: seus ossos perfeitamente intactos, seus cabelos brancos, suas vestes…
É o ciclo natural das coisas, eu sei. Mas não compreendo.
Haja o que houver, uma certeza eu tenho : nunca compreenderei a morte!
Hoje queria que minha avó, onde quer que ela se encontrar, soubesse que ela fez parte da minha vida e, principalmente, que eu a amava.
Eita feiosa! Vc escreve bem…
Faz a gente parar pra pensar e valorizar a vida.
Aliás, é isso que eu tenho aprendido ao seu lado: o valor de uma amizade, de um carinho cúmplice e, o principal, que é o amor. Sinto muito pela sua vó. e por você… quase q ela te mata! =)
Vc sabe que pode contar comigo sem limites. Então, rindo ou chorando, estarei ao seu lado.
Q bom q vc voltou. Senti sua falta nesse finde. Bjo, do seu handsome British
Rai, não sabia se ria ou se chorava ao ler esse texto. Quantas histórias, não?!?! Sentiremos a falta da vó véia Sílvia!! E mais uma vez, parabéns, lindo texto!!
Perdi minha avø hoje,perdi meu pai a 2anx!kando soube da morte dles, parecer k o xäo ia se abrir é favor…parecia k dentro do meu coraxao tivexe um precipicio sem fim!ñ sangra,ñ inxa mas doi…amo-t avó ADELINA
Meus pêsames! Nunca estamos, realmente, preparados para receber a morte. Ainda bem que a vida sempre nos brinda com ótimos motivos continuar vivendo “com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança”
Neste momento minha avó está na UTI, com pneumonia e câncer. Provavelmente vai morrer em breve. É interessante como a morte nos leva a fazer reflexões sobre questões fundamentais, como “por que estamos aqui?”, e como essas coisas nos fazem crescer. É como se, pra cada vida que se vai, crescessem as vidas que ficam.
Exatamente Janice!
Aprendemos muito com a morte. E, as vezes, só ela é capaz de nos fazer parar e refletir.
Boas vibrações para sua avó!