Toda a minha vida eu esperei. Esperei o mar, o trem, a comida, a chuva…
Esperava meu pai voltar do mar para recolher os peixes;
Esperava anoitecer para armar as redes;
Esperava minha mãe para me levar para a escola;
Toda a minha vida eu esperei.
Se a música acabava, eu esperava a reprise para tentar decorar a letra;
Se a fogueira se apagava, eu esperava a última fagulha virar cinza para ir me deitar;
Se fazia sol por muitos dias, esperava a chuva;
Quando todos falavam, eu esperava o silêncio;
Durante a noite, eu esperava o sono.
Se o céu oferecia as estrelas, eu esperava o luar;
Eu sempre esperei. Era uma esperadora.
Esperava tudo. Só havia uma coisa que eu nunca tinha esperado. Algo que todos ansiavam, menos eu- que nunca esperei o amor.
Mas um dia ele veio. E veio do mar.
Quando esperava o sol se por, sentada na areia ainda quente, um barco divisou o horizonte.
Nascida e criada à beira da praia, eu conhecia todas as embarcações. Aquela não.
Esperei o barco se aproximar. E seu condutor ancorá-lo.
Ele desceu e parou ao meu lado.
Esperou minha voz assim como eu esperei a dele.
Ele também era um esperador.
Naquele dia, nada falamos. Nem nos próximos que se seguiram.
Aquele pescador misterioso ficou hospedado na cabana de um vizinho.
Um dia esperei que ele voltasse com seus peixes do mar para conversar e remir do silêncio que lhe deu as boas-vindas.
Conversamos muito. E nessas conversas descobri que ele era um pescador errante que vivia navegando e nunca tinha uma moradia onde ficasse por muito tempo.
A partir deste dia me apaixonei.
Vivia na certeza da sua partida e na esperança que sua ideologia mudasse.
E tudo quanto eu esperava era por ele, dele, para ele.
Esperava seu sorriso de bom-dia, sua volta do mar.
Esperava as noites em que conversávamos em volta de uma fogueira.
Esperava que o tempo estivesse bom toda vez que ele saía para a pesca.
Esperava que ele sentisse minha falta.
Minha vida continuou sendo a de uma esperadora.
Depois de dias sem obter uma boa pesca, ele resolveu sair para mais uma empreitada. O mar estava revolto. E eu desesperada.
Mas ele precisava partir. E assim o fez.
É inefável a angústia que senti naquele momento. Uma angústia que cala a voz, dói o peito e se perpetua….
Cada onda que arrebentava violentamente perto da praia era um presságio de que eu não o veria mais.
Nunca mais meu pescador voltou.
Não tenho certeza se ele está vivo.
A única coisa viva é a esperança de que um dia ele volte da mesma maneira que chegou: inesperadamente.
P.S.: A inspiração para esse conto veio da música Suíte dos Pescadores, de Dorival Caymmi, cantada por Nara Leão.
Eu já te disse que vc é demais hoje?!
Demais!!
beijoo